Que tal pensar em propostas flexíveis?

Que tal pensar em propostas flexíveis?
Pergunte para um pai se seu filho é igual a outra criança! Prontamente ele responderá: meu filho é único! Não se parece nem com o irmão!
E não estamos falando só da aparência!
E por que algumas instituições de Educação Infantil tendem a tratar suas crianças como iguais, padronizadas?
 

Criança: um indivíduo

Atividades fechadas e engessadas revelam que os professores esperam suas turmas se comportem de forma homogênea. Como diz a educadora Rosa Batista, se espera que a criança se comporte como “aluno”: aluno obediente, aluno ordeiro, aluno disciplinado…

estampa crianças montada

Os documentos oficiais de orientação para a Educação Infantil são claros ao conveber a criança como um ser singular, que traz consigo uma cultura, desejos e modos de ser e estar no mundo. Será que a rotina das escolas contempla esta visão sobre a criança?

Os tempos da Creche

Se colocarmos para os pais a seguinte questão: nos finais de semana, que horas seu filho gosta de brincar? E de tomar banho? E de comer? E de dormir?

Aí, colocamos a pergunta para nós mesmos, pensando na turminha com a qual trabalhamos: todos os nossos pequenos gostam de dormir na mesma hora? Querem brincar disso ou daquilo no mesmo momento?

Os tempos da creche começam a parecer estranhos…

Criança pensa com aquilo que trás de casa, misturado com um jeito criativo de ser que experimenta e se reinventa. Como lidar com tanta plasticidade? Como trabalhar com tamanha originalidade?

Acreditamos que as estratégias surgem a partir do momento que o professor entende que ser diferente é a regra e não a excessão!

Porque não respeitar os pequenos que não querem dormir na hora programada e fornecer alternativas para que eles aproveitem o momento calmo do dia? Dar livrinhos, joguinhos de quebra-cabeça, colocar uma música suave e simplesmente deixar a criança usar a imaginação e viajar à sua maneira.

E nos momentos de atividade, em que algumas não querem se envolver? É bom pensar que não acordamos com a mesma disposição todos os dias! Costumamos sugerir que os professores tenham sempre recursos preparados para as “atividades paralelas” (uma caixa com brinquedos, alguns livrinhos, um kit de desenho etc.).

Criança = brincar

Outro aspecto importante da infância é a brincadeira. Se você perguntar para uma criança o que ela está fazendo, ela pode até contar uma história, mas ao final dirá que está brincando. Porque, para ela, tudo é brincadeira. É a modo de ser da infância: estou brincando de desenhar, estou brincando de lavar as mãos, estou brincando de tomar o suco… As brincadeiras percorrem o dia, de uma atividade para outra.

Gilles Brougère, filósofo francês, costuma dizer que ninguém sabe onde as brincadeiras vão levar e, portanto, as incertezas devem fazer parte da programação de quem lida com crianças. As propostas engessadas não são adequadas à infância, que é pura brincadeira, criação e incerteza.

O “produto” das atividades

O que eu vou “pendurar na parede” se não tiver certeza de que as crianças vão realmente fazer um desenho/uma escultura/uma pintura…? E se a “brincadeira de pintar” levar a atividade a outros rumos?

Um exemplo prático 

Numa sala de crianças na faixa de 18 a 24 meses, as crianças foram convidadas a fazer um grande desenho coletivo numa folha de papel Kraft colocada no chão.

Após um tempo dedicado aos rabiscos e cores, uma criança resolveu pular para dentro do desenho. Passeou pela folha de Kraft dizendo que estava andando num caminho. Em certo momento, surgiu um lago e ela nadou. As outras crianças entraram na brincadeira e o desenho ganhou vida. Tinha árvore, montanha e bicho! Logicamente o desenho começou a ficar amassado e foi virando uma maçaroca de papel.

O grupo ficou nessa brincadeira por muitos minutos até que a “cobra” surgiu na fala de alguém! O papel amassado era ela: a cobra poderosa. Mais brincadeira, fantasia e movimento. Aquele Kraft amassado se transformou em outro brinquedo. Mais pesquisas, descobertas e criatividade. Mais movimento e expressão por parte das crianças… Já a professora… estava frustrada: “estão amassando o desenho da atividade que eu programei! Eu ia pendurar na parede. Como vou fazer o registro dessa atividade? Não sobrou NADA!”.

Diante da comoção, convidamos a professora a pensar: a atividade que começou com um desenho coletivo foi se desdobrando até se transformar num cenário para as crianças fantasiarem, criarem, se mexerem e pesquisarem narrativas e relações. O grupo brincou sem parar por quase uma hora! Concentrado e dedicado! Envolvido e participante!  Não é um resultado espetacular?

“Pendure a cobra”, sugerimos! Junto com ela, uma breve descrição do seu planejamento e dos acontecimentos. Como havíamos fotografado a proposta, escolhemos duas imagens significativas para integrar a documentação.

Voltamos à creche na semana seguinte e a cobra – a maçaroca de kraft – nos foi apresentada por várias crianças. A professora comentou que o novo brinquedo foi usado diversas vezes pela turma… daquele jeitão mesmo: amassado, meio rasgado e já frágil. Mas autêntico! Era da turma! Criado pelas crianças, no momento delas.

Propostas flexíveis são então a chave do mistério. Além de contar com um planejamento amplo, o professor pode olhar para o desenvolvimento da proposta acolhendo e incluindo as contribuições, energias e proposições as crianças.

palhaço na molduraBrincadeira tem hora? Tem sim senhor! Que tal agora?

balão laranjaLeia também o depoimento da  Maria Aparecida em: Doutora Maria Aparecida fala sobre Educação Infantil

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