A linguagem é Dança… não “dancinha”!

A linguagem é Dança… não “dancinha”!

É só pensar em data comemorativa para dar um “check” na dança!
Só que não.
Dança é uma das linguagens artísticas e expressivas do currículo da Educação Infantil e, como tal, precisa ser explorada, apreciada, pesquisada, testada, criada, revisitada e refletida… do contrário, é só “dancinha” mesmo!

Assim, como linguagem da Arte, a dança não é só entretenimento ou objeto de contemplação, é considerada como atividade de conhecimento (BNCC p.39) para ampliar o repertório expressivo, criativo, estético e sensível das crianças.

Se não é simplesmente ensinar “dancinhas”, o que as crianças precisam experimentar nesta linguagem artística?

Dança é parte da cultura humana há milhares de anos e este tesouro artístico e cultural precisa chegar aos pequenos por meio do planejamento de propostas sequenciais e intencionais. Para desenvolver a “dancinha” a ser apresentada nos eventos comemorativos, a linguagem da dança precisa entrar na rotina das crianças e encantar, contagiar, disparar a criação e o desejo de “expor” a coreografia inventada e ensaiada. Portanto, como nas linguagens da música e do desenho, tudo é parte de um processo que envolve conhecer – apreciar – sentir – recriar/criar.

Então, como fazer a dança entrar nos corpos e corações das crianças?
Começando por conhecer seus fundamentos:

Movimento

Nossos corpos se movimentam no dia a dia: deitamos, levantamos, sentamos, tomamos banho, caminhamos… Observar os movimentos cotidianos, questionar-se sobre eles e “permitir que gestos comuns se convertam em atitudes mais ou menos conscientes” é um começo para dançar (Vianna, 2005, p. 121).

E tudo isso depende das articulações!

Articular as inúmeras “dobradiças” que compõem o corpo, permite movimenta-lo e dançar. Ter consciência sobre isso é fundamental quando pensamos em dança para pequenos: como está o desenvolvimento articular das crianças? Quais “dobradiças” estão mais coordenadas? Quais articulações são acionadas para dar expressividade aos gestos? Quais movimentos podem ser realizados para promover o refinamento motor?

Outro aspecto a ser trabalhado com as crianças é a percepção dos níveis de movimentação do corpo: quais partes os bailarinos estão movimentando?

  • Movimentos baixos – movimentações abaixo do quadril
  • Movimentos médios – realizados entre o quadril e o ombro
  • Movimentos altos – utilização das articulações acima do ombro. Os braços fazem parte destes movimentos.

Também caracterizam os movimentos da dança:

  • Ações corporais coordenadas
    • andar/correr,
    • girar (em roda e em torno de si),
    • pular, saltar
    • torcer,
    • dobrar/esticar,
    • levantar/abaixar,
    • forte/firme/suave,
    • rápido/lento,
    • pequenos/amplos,
    •  
  • Qualidades do movimento:
    • peso – firme/suave;
    • fluxo – contínuo/interrompido;
    • tempo (ligado ao ritmo) – rápido/lento;
  • Relações entre o próprio corpo e entre os corpos participantes da dança
  • Técnicas e estilos (dança moderna, contemporânea, balé, danças folclóricas, dança de salão, dança de rua etc.
  • Narrativas: que emoções, sentimentos e histórias o corpo dançante quer contar? Quais “símbolos gestuais” usou para isso?

Além da consciência e intencionalidade sobre os movimentos, dançar também envolve movimentar-se num espaço… ESPAÇO? Sim, este é um outro elemento da dança!

Espaço

É o palco, a sala de aula, o parque, o refeitório… todos os lugares são espaços de dança, se favorecerem a experimentação artística.

Várias dimensões compõem o espaço da dança: o cenário, os figurinos (quais espaços eles ocupam? Quanto espaço sobra para se movimentar?), objetos, iluminação (o que a luz permite ver? Quais impactos/sensações causa a escuridão no contexto da dança criada/apreciada?). Os bailarinos podem ocupar o espaço deslocando-se de modos diferentes: cruzando de um lado para o outro, fazendo curvas, em ziguezague etc.

Som

Todos os tipos de música de sons compõem a dança: palmas, som da respiração e do impacto do corpo que bate no chão, barulhos dos objetos usados e a voz. Além de tudo isso, o próprio silêncio pode ser parte da dança: nas pausas e em momentos de expressão corporal sem música. Em resumo, dança é feita de sons e silêncios, não somente de música!

A dança na prática

Repertório

O crítico de arte, curador e filósofo Fernando Cocchiarale, diz que o adulto tem receio de apreciar e se expressar em relação à arte contemporânea porque tem que “entender” tudo de imediato. Com isso, se atrapalha ao sentir a obra e perceber as próprias reações diante dela. Fernando destaca que uma obra não precisa ser inteligível: “Eu nunca ouvi ninguém dizer: eu não consegui sentir essa obra”, mas é frequente ouvir: eu não entendi esta obra! Nesse sentido, segundo o crítico, a obra de arte se apoia nas sensações e emoções que ela nos causa e não necessariamente naquilo que “entendemos” dela.

Então a dica é fugir de um repertório de Arte obvio e massificado, e oferecer para as crianças oportunidades de sentir e experimentar uma diversidade de propostas artísticas.

No caso da dança, que tal explorar a cultura regional e a de diferentes países? Por meio de vídeos e espetáculos, as crianças podem conhecer, experimentar e opinar sobre modos de dançar dos indígenas, dos gaúchos, dos sertanejos, dos sambistas etc. Também podem apreciar as diferentes danças africanas, indianas, chinesas, aborígenes australianas e, com isso, testar ritmos e movimentos com os próprios corpos.

Prática

Alguns professores de dança defendem o pé no chão para dançar. O contato dos pés desnudos com o chão favorece as sensações táteis, o bem estar, uma melhor percepção do corpo no espaço e o jogo do equilíbrio-desequilíbrio que os movimentos dançantes provocam.

É interessante alternar momentos livres, para que as crianças criem seus jeitos de dançar, com momentos de apreciação da dança. Se a escola possui aparelho de Datashow, é possível fazer uma seleção de manifestações culturais que envolvam a dança, organizar um espaço livre na sala e projetar as imagens bem ampliadas na parede. O tamanho do “espetáculo” impressiona, sensibiliza e encanta. O espaço livre e, provavelmente a música, convidam a experimentar, imitar e criar.

“A mulher do bambolê”

Na Creche Aníbal Difrancia (São Paulo) as professoras Joseli Soares Silva e Adriana da Cruz investigaram a cultura do circo com a turminha de 2 anos, ao longo de um ano. Palhaços, equilibristas e trapezistas transformaram a sala, as atividades artísticas e os cenários do faz de conta. Numa das seções de vídeo, as crianças foram apresentadas a uma artista circense (do leste europeu) que dominava com maestria o bambolê. As crianças se encantaram com a “moça do bambolê”, e a dança dos pequenos passou a incorporar o adereço.

Com isso, a dança invadiu o circo e a figura da bailarina foi explorada nos espetáculos de vídeo, na música do Chico Buarque, nas histórias da literatura e na aguardada visita de uma bailarina clássica (de verdade!) que se apresentou na creche, trajada com tutu e sapatilhas de ponta.

O “moço que dança na chuva”

Na Escola do Bairro (São Paulo), a professora Camila Vieira desenvolveu com sua turma de 1 a 3 anos uma investigação sobre a chuva. No verão chove quase todas as tardes em São Paulo e a Camila não aguentava mais ficar na sala com os pequenos esperando a chuva passar. Até que pensou: acho que vamos explorar o espaço externo com a chuva mesmo! A professora investigou o que as crianças conheciam e sentiam sobre a chuva. A partir disso, desafiou o grupo: que barulho a chuva faz? E se guardarmos a água da chuva? Aos poucos compreendeu que as crianças tinham medo da chuva. Para trabalhar essa questão, preparou uma sessão de um trecho de dança do filme clássico Dançando na Chuva, com o ator Gene Kelly. A apreciação do musical instigou os pequenos que reconheceram a alegria do ator Gene Kelly ao se molhar e dançar na chuva. Aos poucos, foram se levantando e dançando junto com filme.

 

Dançar é delicioso se o fizermos com a liberdade que gozamos aos ouvir uma música, apreciar uma pintura ou assistir um filme. É preciso um ambiente especial para sentir e se emocionar. Segundo XXXXX, é uma linguagem artística importante para o desenvolvimento integral das crianças e uma dimensão cultural importantíssima para o desenvolvimento humano. Assim, não cabe reduzi-la à dancinha da festa da família ou só pensar na tradicional ciranda. Como professor, é preciso abrir os canais sensíveis para esta forma artística, pesquisando um repertório, conhecendo a diversidade, apreciando espetáculos de dança e, se possível deixando-se levar pelo encanto de dançar.

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PARA SABER MAIS…

→ BIBLIOGRAFIA

  • Klauss Vianna – A dança. São Paulo: Summus, 2005
  • Carolina R. de Andrade e Kathya M. A. De Godoy – Dança com crianças: propostas, ensino, possibilidades. Curitiba: Appris, 2018.
  • Fernando Cocchiarale – Quem tem medo da arte contemporânea. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2006.

Leia mais sobre arte, cultura e repertório nas postagens:

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