Check list da Documentação Pedagógica

Check list da Documentação Pedagógica

Afinal, o que é importante pensar ao elaborar a documentação pedagógica?

Antes de responder a esta pergunta, é preciso falar sobre a escuta pedagógica, o registro e a famosa reflexão sobre os registros.
Por quê? Porque uma documentação que considera as vozes da criança e do professor necessariamente passa pela qualidade da observação, do registro e da retomada de todas as informações colhidas para o processo reflexivo.

Pois é, está tudo tão interligado que ultimamente tenho pensado que uma boa documentação pedagógica é fruto de um processo qualificado de ensino, porque ela é a ponta de um iceberg, que tem uma base gigante que engloba o trabalho pedagógico intencional.

Até aqui estamos dando voltas sem chegar à prática, não é mesmo?
É que sendo a documentação o resultado de uma prática de ensino qualificada, é preciso ter clareza sobre:

  1. Quem estamos educando – uma criança passiva, cuja participação está em participar daquilo que sempre o outro propõe, ou uma criança que indica seus desejos e necessidades e é ouvida?
  2. O que vamos ensinar – um apanhado de atividades que “descobrimos” e criamos para entreter as crianças, ou conteúdos articulados e sequenciais, intencionalmente trabalhados para aprofundar as aprendizagens e dar voz às crianças nos seus interesses e nas aprendizagens curriculares?
  3. Como vamos ensinar – montando ambientes dignos de bufê infantil, com elementos estereotipados e distantes da arte e da cultura local, que não incluem a participação da criança no planejamento, ou preparando-se para organizar espaços propositores interessantes, desafios e perguntas que provocam pensamentos de alto nível e abrindo-se para uma escuta generosa com pauta de observação, registro e reflexão?

São 3 eixos da educação infantil geralmente atropelados por rotinas insanas e professores com solidão pedagógica. Solidão pedagógica? Sim, porque são profissionais que não contam com o outro para observar sua prática, refletir em conjunto sobre estratégias adequadas e teorias a serem estudadas com aplicação prática.

No nosso Curso de Coordenação Pedagógica abordamos essa questão central na busca da qualidade na educação infantil: a importância do papel formativo do coordenador e do grupo de professores ao se permitirem estudar as práticas reais que acontecem na escola.

Sem mais delongas, vamos ao check list da Documentação Pedagógica, ou os eixos estruturantes do instrumento metodológico que coroa a aprendizagem e dá pistas para encaminhamentos que aprofundam as aprendizagens:

  • Pensar no público da documentação – sendo um instrumento que tem como propósito comunicar o processo sistematizado (organizado) de aprendizagem das crianças e o processo de ensino do professor (e da escola!), é fundamental que se pense no público para ajustar o formato e a linguagem.

    • Se a documentação for destinada às crianças, é preciso pensar na faixa etária, nos elementos (fotos, textos, produções e materiais) que contarão as histórias pedagógicas: quais estratégias são mais adequadas para contar para as crianças a história de suas explorações, investigações e aprendizagens? Como expor as narrativas de suas vivências, dando oportunidade para que elas enxerguem o processo, revejam suas descobertas e façam novas conexões? Qual o melhor local para afixar este material? Qual parede pode ser mais visualizada para apoiar as investigações? Onde deixar o portfólio (se esta for a opção escolhida), para que seja folheado e lido sempre que as crianças desejarem?
    • Ao pensar nas famílias, o pedagogês pode ficar de lado. Frequentemente encontramos citações teóricas que têm o intuito de “explicar” ou justificar o trabalho pedagógico mas que, na verdade, deixam de lado o que realmente importa:
      • Por que o professor planejou a tal proposta? Quais EVIDÊNCIAS obtidas na observação das crianças o levaram a propor tal atividade? (uma fala, um gesto, uma situação)
      • Como a proposta ou o percurso investigativo foi trabalhado?
        Quais foram as EVIDÊNCIAS dos resultados?
      • A partir dos resultados, o que o professor pensa sobre dar sequência ao percurso de aprendizagem?

Dá para perceber a diferença? No lugar de expor um conteúdo “impessoal”, que poderia pertencer a qualquer turma, professor e escola, a documentação pedagógica precisa revelar processos reais e singulares que dependem da particularidade das crianças e da personalidade do professor. Com isso, levamos para as famílias os contextos reais da escola e de seu projeto de ensino; alimentamos os familiares com assuntos interessantes para que conversem com as crianças e incentivamos a colaboração com as investigações.

    • Já a documentação voltada para a equipe pedagógica, colegas professores e coordenadores, também precisa apresentar uma narrativa apoiada em evidências, expondo o pensamento do professor em profundidade, com suas escolhas, dúvidas e certezas. Encontros organizados para analisar e refletir sobre a documentação pedagógica são a melhor forma de estudar e aprofundar os conhecimentos da prática pedagógica. É a partir desta reflexão que se identificam as necessidades teóricas, as mudanças de atitude e a pesquisa de novos recursos… isso tudo com significado, porque surgem como apontamentos da prática.
  • Permitir-se desacelerar – esta é a constatação da pesquisadora americana Susan Stacey. Quando o professor se empenha em produzir uma documentação, ele naturalmente escapa da rotina e desacelera. A autora acredita que é neste estado que a reflexão encontra espaço. Desse modo, ao programar-se para elaborar uma documentação, não é pecado, por exemplo, organizar cantos interessantes de atividades na sala, e ocupar as crianças para poder construir a documentação (na presença delas!).
  • Outro aspecto importante sobre o momento de produção da documentação, é que ela deve acompanhar os percursos de aprendizagem. Documentação pedagógica APOIA as aprendizagens das crianças e do professor, além de engajar as famílias no processo. Portanto, não tem essa de “vou esperar o projeto acabar para fazer um lindo portfólio”. A lindeza da documentação está em ser parte do processo de ensino-aprendizagem, afinal, ela é um INSTRUMENTO METODOLÓGICO do ensino.
  • A elaboração precisa incluir as crianças. Susan Stacey ressalta a importância de se construir a documentação na presença das crianças, compartilhando com elas os pensamentos e consultando-as. Esta atitude não é só respeitosa, mas é também pedagógica. Para as crianças, é uma oportunidade de tomar consciência sobre as aprendizagens e para o professor é ouvir o que as crianças pensam sobre seus percursos… a partir desta escuta muita coisa pode mudar ou se confirmar.
  • Se a documentação é uma narrativa clara e organizada dos percursos de aprendizagem e investigação, certamente o professor (e as crianças quando aptas e incluídas!) precisará organizar e escolher os elementos que contam melhor a história. Neste processo, poderá deixar de lado muitas anotações, produções e fotografias para privilegiar aquilo que confere narrativa ao ensino e à aprendizagem em ação, aos resultados e aos progressos das crianças.

Diante disso, ao colocar a mão na massa da documentação, arrisque-se! Procure fazer diferente daquilo que está em piloto automático. E, mesmo que a sua documentação esteja amadurecida, procure testar novos recursos e fazer escolhas diferentes. Depois, avalie! Observe o público se alimentando da produção, consulte-o e aproveite as oportunidades para qualificar cada vez mais este instrumento que tem o poder de expor a alma das crianças e do professor, além de toda a cadeia de ações envolvidas no processo de ensino e aprendizagem.

Ao exercitar a elaboração da documentação pedagógica, a professora Talita Regina Lopes de O.  Marques, aluna do Curso do Tempo de Creche – Escuta: eixo da prática pedagógica, preparou um material que demonstra a sensibilidade do professor que está atento aos detalhes do desenvolvimento infantil e que reflete o passo a passo da construção das aprendizagens da criança. Talita gentilmente compartilha seu trabalho com os colegas leitores do Tempo de Creche:
PARA BAIXAR O ARQUIVO DA DOCUMENTAÇÃO CLIQUE NO LINK: Documentação – Bianca e a escalada do escorregador

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PARA SABER MAIS…

Susan Stacey é pesquisadora, formadora e professora de crianças pequenas há mais de 30 anos. Publicou diversos livros e artigos sobre Educação Infantil e, para esta postagem, utilizamos referências do livro Pedagogical Documentation in Early Childhood: Sharing Children’s Learning and Teachers’ Thinking, de 2015.

No Tempo de Creche você encontra inúmeras postagens sobre Escuta, Registro e Documentação Pedagógica na aba ENSINO – REGISTRO e DOCUMENTAÇÃO. Destacamos algumas:

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