Acolhimento: um tempo de escuta

Acolhimento: um tempo de escuta

Muitos coordenadores e professores escrevem para o Tempo de Creche em busca de planejamentos e programações para o início do período letivo. Dúvidas, incertezas e desejo de mudar e avançar nas práticas pedagógicas ocupam mentes e corações de educadores que se veem ansiosos com o momento de conhecer a nova turma e identificar os desafios.
É nesse sentido que um planejamento voltado para a ESCUTA se faz essencial.

O que é acolher se não, fundamentalmente, escutar?
O que é escutar uma criança com ouvidos de professor?
Você já pensou em como fazer isso na prática?

Algumas dicas…

1- No início do período letivo, conhecer a criança é ouvi-la usando o ouvido, o olho e a intuição ao longo de muitos dias. É esquecer o que “acho que já sei sobre ela”, mesmo se a criança já pertencer à escola ou se tiver sido “apresentada” pelos pais. É estar de coração aberto para estabelecer uma nova relação sem PRÉ-conceitos.

Em sentido inverso, é se fazer conhecer. Assumir uma postura de se expor. Não raro, professores encarnam um lugar elevado e distante na relação que estabelecem com as crianças, dificultando a criação de elos.

Pense: se eu sou um ser abstrato, quase um personagem, como a criança vai se sentir à vontade para se abrir e se conectar?

Então, ao mesmo tempo que dedica uma atenção carinhosa àquilo que os pequenos começam a partilhar, o professor precisa pensar no modo como fala de si.

O que querem dizer as frases construídas em terceira pessoa?
– A prô gosta que guarde o brinquedo aqui!
– A professora quer que todo mundo encoste na parede para tomar o lanche.

 Será que os diálogos do início do período letivo devem ser baseados na comunicação de regras e normas a serem seguidas durante o ano?
Que tal revelar um pouco de si?

O que acha de expor suas músicas, obras de arte e histórias preferidas?
– Vocês gostariam de ouvir a minha música preferida?
– E quanto a vocês, quais as músicas que mais gostam?
– Vou contar uma das minhas histórias prediletas. Convido a sentar aqui quem quiser conhecer!

O importante é se revelar com uma pessoa real e, com isso, dar chance para que as crianças também se expressem sobre si.


A psicóloga Joyce Eiko Fukuda, nossa parceira e coautora dos livros Práticas Comentadas para inspirar e Coleção Tangará, traz mais clareza a essa discussão.

Pensar em outros jeitos de se dirigir às crianças nos convida também a buscar as raízes do porquê fazemos como fazemos.

E por que será que é tão comum as professoras conversarem falando de si em terceira pessoa? “Vem aqui com a professora” nos faz lembrar do clássico “vem, mamãe”, expressão comum usada por tantas mães ao chamarem seus filhos.

Essa “mistura de pessoas”, em que a mãe chama o filho dizendo de si mesma é, por sua vez, fundamental para a construção do vínculo no começo da vida! No próprio modo de falar, adulto e criança se unem, colocando-se um no lugar do outro: movimento bonito e necessário para a construção de uma relação.

Quando estamos diante de alguém que ainda não conhecemos, buscamos recursos para compreender o outro, para sentirmos como ele, e é isso que o “vem, mamãe” nos revela: um desejo de se conectar com a criança, quase que se misturando com ela nesse primeiro momento.

Assim podemos também entender esse movimento nas professoras. A origem dessa “confusão de pessoas” não diz de um distanciamento – muito pelo contrário: almeja um encontro.

O que acontece é que, com o tempo, o vínculo se estabelece, as crianças vão crescendo… e as professoras se mantêm com as falas do começo da relação.

Sabemos o quanto é difícil nos darmos conta das mudanças de um processo quando estamos “dentro” dele, e é neste momento que precisamos resgatar a intencionalidade pedagógica: depois de estabelecido um elo de confiança ou quando a criança já dá sinais de saber que ela é um ser diferente do outro, chega a hora de repensarmos a intervenção.

Neste momento, é muito mais educativo que a professora comece a dizer de si em primeira pessoa: “Agora eu quero convidar vocês para aprenderem uma nova brincadeira!”, “Venha aqui comigo”, “Será que você pode me ajudar nessa brincadeira?”

E tudo isso é escuta: estar aberto a repensar a prática para acolher a criança, em encontros que se transformam no tempo.


2- Outra dica é criar contextos para observar as crianças em diferentes situações.

Se o professor está “zerado” de informações sobre a sua turma e aberto a construir as primeiras impressões, ele precisa disparar provocações em muitas direções! Isso significa organizar contextos de brincadeiras variadas, atividades expressivas, e deixar de lado os esforços para “decorar” a sala com imagens e objetos que provocam pouco ou nenhum efeito sobre os pequenos.

Cantos de atividades são um recurso imprescindível para acolher as crianças nos primeiros dias e propiciar as primeiras observações de cada uma. É possível perceber os brinquedos e materiais de que mais gostam, o tempo que levam para escolher, as brincadeiras que criam, as relações que estabelecem (ou não!) com os colegas, o modo como usam o corpo e se expressam, as dificuldades e habilidades, entre muitas outras características.

É importante alternar a cada dois ou três dias os cenários criados para os cantos e manter aqueles que fizerem mais sucesso para conquistar as crianças e ampliar as possibilidades de observação.

3- Percursos e brincadeiras para percorrer os ambientes da escola também são importantes para promover mais intimidade e segurança com os espaços e autonomia para chegar na sala, ir ao refeitório, conhecer os caminhos para o banheiro e o parque, por exemplo. Nestas pequenas jornadas, a criança aproveita para interagir com os outros profissionais e crianças de outros grupos que encontram no caminho. Com isso, começam a ampliar os vínculos com a instituição.

O início do ano é um período marcado por tensões e emoções de todos os lados, mas se tem uma coisa que criança percebe de longe é o distanciamento do adulto. Aproveite o tempo para acolher e também se deixar ser acolhido pela turma e pelas famílias. Baixe as armas, permita que a sensibilidade aflore e que o coração bata no compasso das crianças.

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PARA SABER MAIS…

Tempo de Creche tem publicado uma série de postagens sobre o período de acolhimento e adaptação que contém outras dicas e discussões:

→ Joyce Eiko Fukuda é psicóloga e orientadora educacional da Escola Criarte em São Paulo. É também formadora e coautora de duas publicações da equipe do Tempo de Creche:

 

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