Fortalecimento do diálogo entre escola e famílias: desafios e aprendizagens da pandemia

Fortalecimento do diálogo entre escola e famílias: desafios e aprendizagens da pandemia

A pedagoga Cecilia Pereira de Almeida Assumpção compartilha conosco suas experiências na ampliação do espaço de diálogo entre a Escola ALFA, da qual é fundadora e diretora, e as famílias de sua comunidade, numa sensível linha do tempo de 2020. Neste relato, percebemos que o aprofundamento das relações família-escola foi determinante para que as crianças pudessem vivenciar em casa diversas aprendizagens peculiares ao contexto escolar.

E por que esta narrativa é importante? Porque, se na pandemia, a educação escolar só foi possível por conta da sintonia com as famílias, imagine como uma boa relação transformará o ambiente de aprendizagens quando a escola voltar ao normal!

De acordo com as notícias recentes, a COVID-19 vai estar entre nós em 2021 e, com ela, os protocolos de segurança e a intranquilidade. Para colocar em prática uma vida escolar híbrida, que funciona parte em casa, parte presencialmente, lidar com rodízio de crianças, “bolhas” de relacionamento, álcool, máscaras e espaços compartimentados, o engajamento da comunidade escolar precisa se aprofundar ainda mais. Assim, convidamos os leitores do Tempo de Creche para conhecer a jornada da Escola ALFA em 2020 e se inspirar na Cecília e sua equipe.

 Começo das incertezas e primeiros passos

“A escola é vida” disse-nos John Dewey (filósofo e pedagogista, 1.859-1.952).

A segunda quinzena de março de 2020 com certeza ficará marcada para a maioria das escolas. Foi precisamente no dia 18, em uma situação até então impensável de acontecer num período letivo, fechamos as portas por determinação do governo devido à Pandemia de COVID-19. Era o início de um longo processo de oito meses a ser vivenciado por nós gestores, professores, funcionários, alunos e suas famílias…

Naquele momento de incerteza não sabíamos o que iria acontecer nos próximos dias, semanas, meses… nos deparamos com o impacto do isolamento social. O espaço escolar foi deslocado transitoriamente para o espaço da casa e da família. O primeiro sentimento que surgiu entre os professores foi representado pela questão: “como manter o vínculo tão importante durante a suspensão das atividades presenciais?”

Não parávamos de pensar nas crianças e como elas poderiam continuar próximas a nós. Foi tudo muito rápido. Não tivemos muito tempo para refletir, precisávamos agir.   A comunicação se tornou fator chave: “por que não ficarmos juntos apesar da distância nos separando?”

Elaboramos conjuntamente com toda a equipe pedagógica nos últimos dias de março e enviamos pelo aplicativo já em uso, vídeos produzidos por nós e dicas denominadas “Estamos em casa”, para que as crianças mantivessem a memória de momentos da vida escolar, mesmo à distância.

Assim, durante o mês de abril apresentamos sugestões de momentos interativos, pois o mais importante era que fossem significativos para a criança e divertidos para os pais, posto que não seriam as aprendizagens escolares que deveriam predominar neste período, mas um convite a brincar e a estar juntos…

Construção da parceria: escuta das famílias

Desta experiência única e rica de aprendizagens numa realidade desafiadora, de um lado famílias se viram diante do home office, com rotinas modificadas e de outro lado, para nós educadores, tentativas e caminhos foram surgindo semana após semana. Percebemos que a educação e a participação dos pais precisavam se tornar um só processo dinâmico e transparente sendo preciso ampliar a relação e ações entre família e escola.

No início de maio, tornou-se primordial sermos escola de “ouvidos atentos”, para acolher as crianças, as famílias e a comunidade, focando mais nos “porquês” do que nos “como”. Um espaço de escuta e receptividade, para que o diálogo acontecesse, levando em consideração a palavra do outro.

Nós, seres humanos, somos seres de relações, nos interconectamos por nossos afetos, ideias, ações e compromissos. Construímos e colaboramos em redes de apoio. Aprendemos a acolher e, em diferentes situações da nossa vida, precisamos ser acolhidos.

Decidimos então, criar um canal de escuta, de comunicação com os pais através do aplicativo WhatsApp, para que cada família pudesse nos contar como tinha sido o desenvolvimento das atividades propostas e para compreender as necessidades que surgiam no contexto familiar, se precisavam de suporte e como poderíamos seguir na solução e bem-estar de todos, principalmente atender à necessidade de estabelecer uma rotina escolar para nossas crianças.

Iniciamos também reuniões semanais virtuais com a equipe nas quais revisitamos propostas educacionais, construímos uma comunidade de aprendizagem para melhor alinhamento de nossa prática educativa e espaços de conversas sobre como estávamos em casa. Tivemos a oportunidade de rememorar fragmentos da vida, reviver alegrias, passagens boas ou não, emoções afloradas a todo instante e ressignificamos momentos já esquecidos. Compartilhar estes sentimentos fortaleceram nosso vínculo e nos encorajou a enfrentar novos desafios. 

Estratégias para a escola remota, sem perder de vista a escola presencial

Planejamos então, uma rotina diária: vídeos das aulas complementares (música, inglês e educação física) e encontros virtuais pelo aplicativo Zoom com as professoras de classe (três vezes por semana para os maiores e uma vez por semana para os menores). A finalidade era fazer com que nossas crianças se sentissem cada vez mais próximas do dia a dia da escola, ampliassem o modo de perceberem a si mesmas e ao outro, reconhecessem as diferenças e valorizassem o sentimento de pertencimento ao seu grupo-classe, levando em conta a identidade de cada criança em seu contexto familiar.

 

Neste mesmo período, realizamos uma formação online com a enfermeira especializada para que todos os professores entendessem melhor sobre as medidas preventivas de controle de doenças e em especial a COVID-19.  Foi um momento muito importante onde a equipe pôde sanar dúvidas e refletir sobre os cuidados e a dinâmica de trabalho (utilização dos espaços físicos, materiais, distanciamento) que precisariam ser adotados para o retorno das atividades presenciais.

A partir de um bate papo com uma mãe a respeito de como lidar com as crianças durante o isolamento social e revestindo o nosso cotidiano de desafios constantes, surgiu a iniciativa de compartilhar ideias sobre alguns temas numa roda de conversa virtual com uma psicanalista infantil, abrindo espaço de troca de experiências e suporte para as famílias.

Em outro momento, a fonoaudióloga especializada em voz, esclareceu como a comunicação por trás da máscara de proteção contra a COVID-19 pode afetar a fala e a qualidade vocal, oferecendo dicas para se ter uma comunicação efetiva no retorno às aulas presenciais.

Enfim, todos estes encontros foram essenciais para que os pais e professores se sentissem acolhidos e preparados para a retomada.

Prosseguimos com nossas ações criativas: sacolas com materiais diversos foram cuidadosamente preparadas “da escola para casa” possibilitando “uma ponte” durante os encontros virtuais a partir de julho.

Construindo a multiplicidade de experiências das crianças

Nossa responsabilidade com a infância foi de garantir um espaço de múltiplas linguagens, descobertas, situações interativas, brincadeiras, desafios, espaços de relação a fim de atribuir significados às experiências vividas.

Para tal, contamos primordialmente com o apoio e suporte dos pais, tanto no sentido de estarem presentes nos encontros marcados, assim como para criarem possibilidades e condições para que este momento fosse esperado, dialogando com a criança sobre o que iria acontecer, ressaltando e valorizando percepções que ampliassem o repertório de vida e, acima de tudo, o vínculo entre os amigos, professores e o universo escolar.

Para nós, o envolvimento dos pais nos deu a motivação de prosseguirmos, a cada semana nossa proposta foi sendo compartilhada com pai, mãe, irmãos, tia e avós, constituindo uma parceria ativa de aprendizagem. Nossos encontros despertaram sentimentos de alegria por estarmos juntos, às vezes com muitas vozes ao mesmo tempo, mas sempre um “até breve” era a nossa certeza.

Realizamos uma reunião virtual com todos os pais no final de setembro, na qual apresentamos nosso protocolo de reabertura gradual da escola, e mesmo distantes, foi importante mantermos o diálogo entre escola e família. Compartilharmos os encaminhamentos da escola e quais seriam os nossos próximos passos para que a retomada das aulas presenciais fosse segura e tranquila para todos (professores, funcionários, famílias). Desta maneira, expusemos a corresponsabilidade dos pais e a participação ativa de um conjunto de medidas para salvaguardar a saúde de todos.

Abrindo espaço para a volta das atividades presenciais

De lá para cá, gradativamente nos aproximamos de uma rotina presencial para as crianças a partir de outubro, sem interromper os encontros virtuais tão importantes para manter o vínculo àquelas que estiveram impossibilitadas de comparecer no ambiente escolar.

Concluímos que a construção de um espaço de diálogo entre escola e família, consolidada ao longo dos meses, favoreceu nossa atuação no processo de aprendizagem de seus filhos que se divertindo e brincando aprenderam muito. Foi prazeroso reconhecer que as crianças são dotadas de extraordinários potenciais de aprendizagem e mudança, com múltiplos recursos emocionais, relacionais, sensoriais, intelectuais, que se expressam em sua troca incessante com o contexto cultural e social. Nada foi desperdiçado, cada dia um desafio ou uma conquista, valorizando a criança, protagonista de seu conhecimento. Para nós uma experiência única! Sempre nos lembraremos das carinhas na tela do computador na qual foi possível manter o vínculo e despertar o desejo de aprender.

Existe uma aprendizagem que só na escola é possível de acontecer. Uma aprendizagem do encontro com o outro, com o semelhante e com o diferente. O encontro com o mais experiente e com o mais novo. Pessoas de origens diferentes, não da mesma família. Pessoas que carregam para este espaço mágico chamado escola e percorrem um pedaço de vida juntos.

Nos despedimos ao final do ano acreditando que a escola se manteve comprometida em proporcionar momentos significativos ao olhar para a infância de modo acolhedor e participativo. As crianças aprenderam muitas coisas, entre elas algumas que os aproximaram de valores como a resiliência e a adaptação a situações inusitadas conseguindo extrair algo de bom delas.

Cecilia e sua equipe agradecem o apoio recebido pela comunidade e esperam em breve reencontrar crianças e famílias no espaço da escola.

 ♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

Cecilia Pereira de Almeida Assumpção é a 5ª filha de uma família numerosa, mãe e avó. Iniciou sua carreira profissional numa escola perto de casa aos 15 anos como professora, e de lá para cá, esteve sempre envolvida no ambiente escolar como fundadora e Diretora Pedagógica da Escola ALFA de Educação Infantil desde 1974. Cecilia também é psicopedagoga clínica e institucional, terapeuta familiar e de casal, psicodramatista socioeducacional, mediadora de conflitos, facilitadora e capacitadora de práticas de Justiça Restaurativa em escolas públicas e particulares, integrante da equipe “Justiça em Círculo”, sócia fundadora do Mediativa – Instituto de Mediação Transformativa.

Leia mais sobre a escola na pandemia:

PALAVRA DE… DRA. ADRIANA WEINFELD MASSAIA: A EDUCAÇÃO INFANTIL DEVE VOLTAR? COMO?

CRECHE SEGURA E ABERTA NA PANDEMIA: PODE?

FORMAÇÃO TEMPO DE CRECHE: PRESENCIAL OU REMOTA? AS DUAS!

60 MINUTOS DESAFIADORES DE ATIVIDADES ONLINE COM CRIANÇAS DE 1 A 3 ANOS? ISSO EXISTE.

Palavra de Marcia Nielsen – um presente da escola para mobilizar emoções e brincadeiras – YOUTUBE

Registros fotográficos: olhando com os olhos ou com a imaginação? – YOUTUBE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.