Que tal olhar para a arte contemporânea indígena?

Que tal olhar para a arte contemporânea indígena?

Você conhece os artistas contemporâneos indígenas? Que tal apreciar belas obras de arte contemporânea realizadas com profundo significado humano? O que acha de levar para as crianças a arte produzida pelos artistas visuais indígenas de hoje em dia?

Desde 2015, procuramos incluir uma postagem sobre cultura indígena no mês de abril. Os povos indígenas, constituintes da nossa sociedade, influenciam a cultura brasileira no dia 19 de abril e em todos os outros 364 dias do ano! Mas, é por conta desta data comemorativa que professores de todo o país buscam se informar e se nutrir de conteúdos para serem trabalhados nas escolas.

Diferentemente das outras postagens do Tempo de Creche, que abordaram as manifestações culturais, estéticas e artísticas utilizadas com função social e simbólica (pinturas corporais, cestaria, cerâmicas, entre outras), nesta postagem vamos apresentar artistas plásticos indígenas que produzem obras de Arte Contemporânea. Elas fazem parte do sistema da arte e entraram no circuito artístico nacional e internacional.

Então, vamos lá!

Cada povo indígena tem uma forma própria de se expressar. Os grafismos, por exemplo, são o “vocabulário visual” da cultura indígena, em que um conjunto de formas, que geralmente nascem das linha reta e circulares, utilizadas repetidamente, compõem as “mensagens” comunicadas. As cores mais tradicionais são o preto, retirado do carvão, o vermelho, extraído do urucum, o azul obtido a partir do jenipapo e o branco presente na argila e em alguns minerais, conforme a região.

Assim como as manifestações artísticas populares regionais, esse conjunto expressivo indígena é passado de geração em geração e, com isso, a essência original de cada comunidade é mantida e adotada com um olhar renovado. Não significa uma ruptura com a cultura tradicional, mas uma soma que dialoga com a história de cada comunidade.

Os artistas contemporâneos indígenas trabalham os elementos de uma matriz cultural ancestral, em especial, a relação de pertencimento à natureza, fazendo uso de materiais, técnicas e perspectivas contemporâneas. Do mesmo modo, os artistas em geral expressam elementos colhidos em suas trajetórias de vida. A denominação “artistas contemporâneos indígenas” expressa uma origem e, ao mesmo tempo, um posicionamento sobre as situações vividas em seus contextos.

Alguns artistas se destacam, entre eles Denilson Baniwa, Jaider Esbell e Kátia Hushahu Yawanawá.

Autorretrato, Denilson Baniwa

Representações e formas de expressão

Denilson Baniwa traz em sua obra a relação que o seu povo possui com a floresta. Ao lado, em preto e branco, vemos o autorretrato do artista, com a cabeça de uma onça, em que se vê cercado e representado por elementos da floresta, mas vestindo uma camiseta, peça de roupa comum nos dias de hoje.

Sua Mona Lisa Kunhã, de 2015, traz a apropriação da Mona Lisa de Leonardo da Vinci aos olhos do mundo indígena.

Mona Lisa Kunhã, Denilson Baniwa

Novas cores

Jaider Esbell é indígena da etnia Macuxi da Amazônia. Em sua obra está presente a força da floresta, a beleza dos seres que a habitam e a ancestralidade que sempre buscou preservar o meio ambiente.

A conversa das entidades intergalácticas para decidir o futuro universal da humanidade, 2021 , Jaider Esbell

 

A obra Sonho, da artista indígena e xamã Kátia Hushahu Yawanawá, traz cores novas para a cultura indígena. Na composição, vemos o ambiente de rio da floresta e seu corpo retratado como uma serpente de água. A transparência da água é um recurso incomum na cultura tradicional indígena, e não diminui a relação da obra com o ambiente. Este trabalho faz parte da série Sonhos que Katia expôs na casa do Povo, em 2011, em São Paulo.

Sonho, Katia Hushahu Yawanawá

Káthua Hushahu Yawanawá, nasceu na região do Rio Gregório, no Acre. É uma das primeiras mulheres do povo Yawanawá a ter aprendido a cura xamânica. Suas pinturas vêm de inspirações do espírito feminino da jiboia.

Crianças, cultura indígena e arte contemporânea

Os povos indígenas são os brasileiros originários e parte fundamental da história do Brasil… mas sua cultura não parou no tempo! Para romper com uma ideia cristalizada de cultura de “Éden perdido”, como afirma a antropóloga e professora de Arte, Lux Vidal, “é importante reconhecer a continuidade da produção artística dos povos que habitam nosso continente, que hoje decididos a continuar como índios, ainda criam e sempre recriam importantes obras de arte dotadas de notável especificidade histórica e cultural”.

Então, que tal aproveitar as imagens postadas e pesquisar outras mais, cobrir as paredes da sala com elas, fazer uma grande projeção e até levar para a roda de conversa com algumas informações e provocações para despertar a pesquisa sobre a vida e a importância dos povos indígenas de hoje?

Diversos aspectos podem instigar a curiosidade das crianças: onde e como vivem os povos indígenas, suas especificidades, com se vestem, quais são as suas ocupações, como se relacionam com o meio ambiente, se estudam, o que estudam… são inúmeros questionamentos que deixariam qualquer pessoa com desejo de investigar e descobrir!

Além disso, as obras de arte podem ser fonte de inspiração para experimentações artísticas e para criar enredos e narrativas… vamos arriscar?

PASA SABER MAIS…
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Lux Boelitz Vidal é antropóloga, professora e pesquisadora da cultura indígena.

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