Avaliação da prática pedagógica: perseguição ou formação?

Avaliação da prática pedagógica: perseguição ou formação?

Por que relacionamos avaliação à crítica “destrutiva”? Talvez o sentimento de incômodo com processos avaliativos tenha raízes na nossa própria história escolar. Mas uma coisa é fato: sem avaliar não progredimos. Sem ter uma visão ampliada sobre a nossa atuação profissional, não nos sentimos alimentados e provocados a evoluir.
Então, como a avaliação da prática pedagógica do professor deve ser feita no dia a dia da escola?

No curso de Formação Continuada Coordenação Pedagógica: o papel formativo e o acompanhamento das práticas do professor estamos trabalhando a reflexão conjunta e o acompanhamento da prática pedagógica do professor, um tema espinhoso que afeta professores e coordenadores por todos os lados.

A avaliação docente é um movimento amplo que inclui o trabalho formativo do coordenador, a constituição de uma equipe pedagógica colaborativa e também um movimento autoavaliativo do professor.

Por que essa questão é tão evitada?

Como dissemos, a simples menção à palavra “avaliação” nos remete às provas e à dificuldade em relacioná-las à aprendizagem. De fato, em outros tempos, a escola não promovia o entendimento de que avaliar processos é parte do ciclo da aprendizagem. Assim, lidar com a autocrítica e a crítica (emancipatória) do outro é ainda muito difícil! Vamos clarear essa questão que está implicada na melhoria da prática pedagógica e da qualidade da escola…

1- Por que avaliar a prática pedagógica?

Por que é preciso refletir sobre a prática pedagógica!
Como fazer isso?
A prática do professor também deve ser fruto de observação, registro e pesquisa para que o docente possa se ver na ação e avaliar suas atitudes e posturas. Com isso, um ciclo reflexivo se fecha e é possível relacionar as estratégias de atuação às aprendizagens das crianças.

Acreditar que toda a carga do processo ensino-aprendizagem repousa só na criança é uma postura não democrática de educação, segundo Paulo e Madalena Freire. Numa educação democrática, todos os envolvidos estão implicados diretamente no processo. Por isso, quando o professor observa a turma, registra os acontecimentos e, por fim, avalia as aprendizagens/necessidades das crianças para planejar os desdobramentos, precisa considerar sua própria atuação no processo.

Hora de rever fotos, vídeos e anotações para repensar a prática – CEI Aníbal Difrancia – SP

2- Por que fazer uma autoavaliação?

Ao registrar as ações das crianças, o professor precisa registrar suas própria:

  • Como as crianças se envolveram como a proposta?
    O que eu fiz para que isso acontecesse? Quais intervenções foram colocadas?
  • Quais provocações foram disparadas?
    Como as crianças reagiram a elas?
  • Quais conquistas e fragilidades as crianças apresentaram/revelaram?
    Quais atitudes pedagógicas desencadearam essas revelações?
  • Quais relações interpessoais surgiram?
    Como acolhi e encaminhei estas questões?
  • Quais falas, expressões e questionamentos das crianças ocorreram?
    Como essas situações foram encaminhadas e como serão os seus desdobramentos?

3- Além de autoavaliar-se, por que é preciso recorrer ao “olhar estrangeiro”?

Pequeno encontro para refletir sobre a prática – CEI Anibal Difrancia – SP

O olhar estrangeiro é o olhar do outro. É pelo olhar do outro que nos constituímos. Para Wallon, o indivíduo é essencialmente social e o outro é um elemento fundamental e estruturante para a formação do eu, no caso, do eu-professor.

Quando o coordenador e/ou o colega nos observa e nos alimenta com sua visão sobre as nossas ações, podemos ampliar a reflexão… do contrário, dificilmente crescemos. É o outro que nos provoca com novas percepções e questionamentos.

Muitos docentes entendem o olhar externo e crítico de forma pejorativa e criam resistência para lidar com um processo que deveria ser natural, compartilhado e valorizado.

Fazendo uma correlação com a dinâmica professor-aluno em sala de aula, é o frequente olhar estrangeiro do docente que alimenta as aprendizagens das crianças. São as colocações do professor para os indivíduos e para o grupo, que fazem com que a criança vá compreendendo suas experiências e atribuindo significados à realidade. Do mesmo modo, o professor deveria encarar a necessidade do acompanhamento de sua prática como parte de um processo de formação profissional continuada. Para Paulo Freire, era fundamental que o docente entendesse que “pensar certo não é presente dos deuses”. O pensar certo, que supera a ingenuidade, tem que ser produzido pelo professor-aprendiz em comunhão com o seu formador.

Pequeno encontro formativo – CEI Anibal Difrancia

4- Extrapolando o contexto…

Já que estamos falando sobre aperfeiçoamento da prática pedagógica, que tal levar a autocrítica e a crítica emancipatória do coordenador e dos colegas para o “ensino remoto” na Educação Infantil? Vamos pensar avaliativamente sobre nossas estratégias e os impactos que elas têm causado nas famílias e na aprendizagem das crianças? O que temos buscado com nossas propostas? Os resultados têm correspondido aos objetivos? Nossa postura frente a esta adversidade precisa mudar? Não podemos afastar as proposta pedagógica do currículo e do projeto político da escola! Criamos tanta coisa em 2020, não é hora agora de abandonar o espírito crítico e criador.

No Curso de Formação Continuada Coordenação pedagógica: o papel formativo do coordenador e o acompanhamento das práticas do professor, estamos mergulhando neste contexto, pensando sobre princípios e estratégias para promover uma prática reflexiva e alcançar êxito na formação da equipe pedagógica… Temos avançado muito nesta questão! Se você não conseguiu se inscrever na primeira edição do curso, fique atento! Em breve, ofereceremos uma nova edição 😉

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PARA SABER MAIS…

Bibliografia utilizada nesta postagem:

  • Wallon – O papel do outro na consciência do eu, no livro Psicologia e educação da criança
  • Isabel Alarcão – Supervisão da prática pedagógica: uma perspectiva de desenvolvimento e aprendizagem
  • Paulo Freire – Pedagogia da Autonomia

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