O que vem antes: a atividade ou o objetivo da atividade?

O que vem antes: a atividade ou o objetivo da atividade?

A pergunta pode parecer simples, mas está longe disso!
Acompanhe a postagem provocadora que questiona a relação entre objetivos, planejamento e as ações do professor durante a atividade. E aguarde a postagem da próxima semana com um novo material sobre objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para crianças de 0 a 6 anos, e dois instrumentos que ajudam a planejar e agir a partir de objetivos.

Para começar, que tal retomar o ciclo virtuoso do processo ensino-aprendizagem para chegar ao centro desta discussão?

Como estamos falando em ciclo, é importante lembrar de círculo, que não tem início e nem fim e pode começar em qualquer ponto. Assim, vamos escolher um início para a discussão.

O processo pedagógico pode começar com o planejamento de uma proposta de atividade: partir do que se conhece das crianças (interesses e necessidades), levantar objetivos, espaços, tempos, materiais, elaborar uma pauta de olhar para organizar o registro etc., etc., etc.

Em seguida, vamos à ação pedagógica, com a organização do espaço propositor e a atividade propriamente dita, acompanhada das ações de observar e registrar.

Depois disso, retomamos os registros feitos no calor da atividade, organizamos e complementamos as informações para refletir, produzir documentação pedagógica para os diversos públicos (crianças, equipe pedagógica, famílias etc.) para, finalmente fechar o ciclo e REplanejar.

Ufa! Muitos processos em torno de algo que só tem a aparência de simplicidade: a atividade.

Bom, se um planejamento parte de uma série de ações e reflexões, como acabamos de ver, o foco do novo planejamento – ou os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento da nova proposta – surgem antes mesmo do planejamento da atividade!

Como assim????

Ao refletir sobre os registros e o processo de aprendizagem das crianças é que o professor pode identificar o foco do trabalho pedagógico que vem a seguir. Este “foco” são os objetivos da próxima atividade. Assim, a partir desses objetivos – pensados anteriormente – é que o professor vai pensar numa nova atividade que favoreça o desenvolvimento das habilidades identificadas na reflexão. 

Vamos a uma situação prática…

Uma professora percebeu a necessidade de trabalhar o controle do corpo ao observar sua turma de 3 anos se deslocar em grandes espaços. Ela identificou essa demanda durante uma atividade de brincadeira cantada, trabalhada no Projeto de brincadeiras culturais das famílias e da comunidade.

Clareando os objetivos (BNCC) trabalhados pela professora na atividade e o desenvolvimento da proposta:

  • Nome da atividade: Brincadeiras cantadas, cirandas e parlendas, no contexto da cultura da comunidade
  • Objetivos da proposta: 
    • “Apropriar-se de gestos e movimentos de sua cultura no cuidado de si e nos jogos e brincadeiras” – Campo de experiências corpo, gestos e movimentos. Com a ajuda das crianças, a professora reuniu as cantigas e parlendas conhecidas pelas famílias e utilizadas nas celebrações da comunidade e convidou pessoas para ensinar as brincadeiras.
    • “Identificar e criar diferentes sons e reconhecer rimas e aliterações em cantigas de roda e textos poéticos” – Campo de experiências escuta, fala, pensamento e imaginação.
  • Ações intencionais da professora:  provocou as crianças chamando atenção para os sons que rimavam e propôs que as crianças pensassem em outras palavras que também pudessem “combinar” (rimar).
  • A professora observou que as crianças se interessaram pela brincadeira e também compreenderam que a brincadeira tem um histórico na vida das famílias que a indicaram. Entenderam as regras, porém, ao correr e imitar (ações que eram parte da proposta), não o faziam coordenadamente, se trombando e atrapalhando o desenvolvimento da brincadeira. Em relação às rimas, se permitiram brincar com os sons das palavras, notaram as semelhanças, mas esta habilidade ainda requer foco e trabalho específico.

Como trabalhar essas questões dentro da sequência investigativa do Projeto de brincadeiras culturais das famílias e da comunidade?

A professora precisou planejar uma nova atividade que promovesse situações para desenvolver o controle do corpo ao se deslocar. Recuperou o repertório de brincadeiras, cantigas e parlendas pesquisadas pelas crianças durante o projeto e selecionou algumas que exigissem corrida, maior interação entre os colegas, gestos amplos e regras.

Clareando os objetivos da nova atividade elaborada após a reflexão da professora:

  • Nome da atividade: Brincadeiras agitadas da cultura da comunidade
  • Objetivos da proposta – do campo de experiências corpo gestos e movimentos: 
    • Deslocar seu corpo no espaço, orientando-se por noções como em frente, atrás, no alto, embaixo, dentro, fora etc., ao se envolver em brincadeiras e atividades de diferentes naturezas.
    • Explorar formas de deslocamento no espaço (pular, saltar, dançar), combinando movimentos e seguindo orientações

Como a atividade aconteceu…

  • No dia planejado, a professora levou as crianças ao parque.
  • Fez uma roda de conversa para trabalhar a explicação das brincadeiras.
  • Retomou com a turma os registros das pesquisas realizadas com as famílias e a comunidade.
  • Convidou as crianças que haviam pesquisado as brincadeiras selecionadas e, com elas, as apresentou para o grupo: nomes das brincadeiras, quem as havia sugerido, quando, onde e como a brincadeira era brincada.
  • Trabalhou as regras e provocou o grupo a pensar sobre combinados para que as brincadeiras “dessem certo”.
  • Durante a proposta, chamou a atenção das crianças (no bom sentido!) traduzindo os gestos e movimentos mais “descontrolados”, sugerindo modos para que conseguissem participar adequadamente e, assim, se divertissem mais.
  • Registrou o ocorrido, retomou os registros, refletiu e avaliou como continuaria a aprofundar as aprendizagens.

Com base neste relato, é possível perceber que a professora primeiro identificou as necessidades de aprendizagem das crianças e, só depois,  pensou sobre atividades que promovessem experiências para disparar as aprendizagens que buscava conquistar com a turma.

Portanto, os objetivos vieram antes do planejamento da atividade!

É claro que isso não é uma regra engessada. Às vezes o professor percorre todos este processo e as crianças não respondem conforme o previsto. É comum que elas proponham novos rumos para as atividades, mesmo que o professor lance mão das estratégias de ação planejadas e crie novas na hora… Está tudo certo! Porque o professor registra, reflete e reencaminha uma nova proposta.

Também existem aquelas atividades que são experiências tão bacanas que o professor não vê a hora de propor para a turma, mesmo que elas fujam das necessidades e investigações das crianças. Então, a sequência muda um pouco e, é a partir de uma proposta de atividade que o professor vai levantar possíveis objetivos de aprendizagem. Isso pode acontecer? Pode, mas não deve ser rotina!  Do contrário, ficamos à mercê do comando das crianças, da diversão e do espontaneísmo e, certamente , não daremos conta do currículo de aprendizagens previstas para a educação infantil.

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NÃO PERCA NA PRÓXIMA POSTAGEM:

  • destrinchamos os objetivos da BNCC e fizemos um novo material com as aprendizagens previstas para crianças de 0 a 6 anos
  • instrumentos de planejamento e registro para exercitar pensar nos objetivos e no planejamento a partir da reflexão.

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12 comments

Também estou conhecendo agora este blog e já estou muito interessada por todos os textos publicados.

É minha primeira vez neste blog e estou encantada com tantas informações. Parabéns a todos envolvidos

O processo pedagógico é composto de varias etapas planejado, ação pedagógica e replanejar.
Tudo isso ocorre para gerar uma atividade.
A reflexão do professor sobre esse processo de aprendizagem o faz identificar, favorecer o desenvolvimento das habilidades identificadas na reflexão. A cada cada atitude planejada professor deve buscar objetivos que se enquadra no perfil da sua turma, e sempre que necessário, fazer adequações .
Toda brincadeira, atividade deve ter regras e combinados com as crianças, assim tudo fluirá bem.
No decorrer da atividade o professor deve se atentar a detalhes que favoreceram ou não a essa atividade .
Antes de propor qualquer atividade o o professor devera identificar as necessidades de aprendizagem do grupo.
Acriança é um ser investigativo, curioso e criativo.

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