Cozinha é lugar de criança? Ariela Doctors responde

Cozinha é lugar de criança? Ariela Doctors responde

Comida é coisa séria porque vai além da saúde do corpo. Comida também alimenta a alma e é coisa de escola, sim! Por isso, convidamos a especialista em comunicação, educação e alimentação, Ariela Doctors, do projeto Comida e Cultura, para conversar sobre educação alimentar na primeira infância.

Tempo de Creche Ariela, por que trabalhar com educação alimentar de crianças?

Ariela – Estamos nessa estrada da educação alimentar e culinária para crianças há quatro anos. Assim como a linguagem, alimentar-se é uma forma de aprendizado que, ao se iniciar desde a primeira infância, pode ser decisiva na formação de hábitos alimentares. Este também é um aprendizado interdisciplinar que desenvolve competências essenciais para a criança, propostas inclusive na BNCC Educação Infantil.

Crianças e adultos em todo o mundo têm enfrentado problemas alimentares que vão desde a má-nutrição até o sobrepeso e a obesidade, considerada hoje pela OMS uma pandemia contemporânea.

Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Pan-americana de Saúde (OPAS), mais da metade da população brasileira está sobrepeso e a obesidade já atinge 20% das pessoas adultas.Entre as crianças, estima-se que 7,3% dos menores de cinco anos estão acima do peso, sendo as meninas as mais afetadas. ​Exatamente por isso, pela primeira vez, as crianças começaram a apresentar doenças que antes eram comuns aos adultos, como diabetes tipo 2, problemas cardiovasculares e depressão.

Tempo de Creche – Por que a educação alimentar precisa estar na escola também?

Ariela – A alimentação na escola não está apenas na hora do lanche ou no momento de uma refeição, o ato de comer pode ser encarado de forma muito mais holística. É importante entender a relação dos alimentos com o Eu, com o Outro e com o Planeta. Desta forma, percebemos de onde vêm os nossos alimentos, como e onde eles nascem ou são produzidos, quem planta, transforma e transporta a comida e os impactos que tudo isso gera no ambiente. Esta é uma maneira de formarmos um cidadão com senso crítico e liberdade.

Tempo de Creche Seu projeto se chama Comida e Cultura. Pode explicar a questão da cultura relacionada à alimentação?

Ariela – Hoje, com a desculpa da falta de tempo, cozinhamos cada vez menos e comemos cada vez mais alimentos ultraprocessados, comidas prontas e sem valor nutritivo, deixando de lado toda a ancestralidade que a comida nos traz. Desse modo, ao final do dia estamos sem energia, cansados demais (inclusive para cozinhar!) e acabamos adoentados, num círculo vicioso.

Com boa vontade, algum conhecimento culinário e organização, podemos quebrar esse ciclo. E, para reconhecermos qual a melhor dieta para cada um de nós, basta olharmos para nossa cultura local! O que nasce ao nosso redor? Quais as receitas que nossos avós faziam?

Além da sobrevivência física, o alimento traz memórias afetivas. São cheiros, consistências, cores e sabores que ficam guardados nos nossos HDs internos e impressos no nosso DNA. Quando cozinhamos junto com as crianças, podemos notar o encantamento delas pela transformação do alimento. E aí, os gestos estão envolvidos e novos rituais são incorporados ao dia a dia. A tradição do cozinhar, de conhecer novos sabores e culturas, além de aumentar o nosso repertório cultural, amplia a humanidade, a afetividade e a percepção da diversidade. E eu creio que não tem nada mais importante no momento planetário que vivemos, do que a gente conhecer, reconhecer e respeitar a diversidade.

Tempo de Creche Antigamente, costumava-se dizer “cozinha não é lugar de criança”, por conta do perigo de alguns utensílios e do fogão. Como você vê esta questão? 

Ariela – Quem disse que lugar de criança não é na cozinha? Com os devidos cuidados e acompanhamento dos educadores e cuidadores, a cozinha pode e deve ser lugar de criança! 

Muitas escolas usam o espaço da cozinha como um laboratório e até como um lugar central da instituição, como é o caso das escolas em Reggio Emília, na Itália.

Criando uma ambiente seguro, podemos quebrar os paradigmas tradicionais da educação e deixar que a criança torne-se protagonista do seu conhecimento dentro da “cozinha laboratório”. Com isso, o papel do educador é trazer diferentes materiais, insumos e elementos para pesquisar, sentir diferentes aromas, texturas  e sabores, fazer suas próprias descobertas e ampliar o seu repertório.

Tempo de Creche Como mobilizar as crianças em relação aos diferentes sabores e saberes dessa cultura? 

Ariela – Primeiramente é preciso criar uma rotina em um local estruturado. A criança certamente criará expectativas a cada encontro, e irá responder e sinalizar para o educador as emoções que está sentido. E nós, educadores, precisamos estar com a escuta atenta e os sentidos aguçados para  responder prontamente, de maneira emocionalmente favorável, contingente e apropriada ao desenvolvimento. Assim, a criança experimenta respostas previsíveis, mas também as criativas e interessantes.

Tempo de Creche Pode dar dicas e sugestões para trabalhar com as crianças de acordo com as faixas etárias?

Ariela – Uma boa estratégia é trazer receitas diferentes, ligadas aos temas que estão sendo desenvolvidos em sala, de forma a interessar às crianças e estabelecer outras relações com os conteúdos pesquisados. 

Os bebês e as crianças bem pequenas têm a capacidade de misturar, experienciar consistências (sólidos e líquidos), provar e sentir os sabores, reconhecendo capacidades, conquistas e também as limitações.

A partir de 4 anos, com a supervisão de um adulto e os utensílios adequados*, a criança já pode cortar, ralar, refogar, investigar e degustar as possíveis transformações do alimento, observando suas propriedades. 

Ao estabelecer uma rotina de encontros para cozinhar, cria-se um ambiente de desenvolvimento individual e coletivo, envolvendo cooperação e empatia.

No final, temos sempre o ápice do encontro, quando degustamos nossa produção, criando um laço afetivo da criança com o ato de comer e compartilhar.

A comida é um instrumento poderoso de educação e transformação!

Tempo de CrecheAriela, pode falar sobre o binômio alimentação e saúde?

Ariela – A palavra RECEITA já nos dá uma pista! Porque, desde os tempos mais antigos, ela pode estar se referindo a uma receita médica , mas também pode estar se referindo a uma deliciosa receita de um assado, de um ensopado, de um doce, de uma torta..Daí, pensando nisso, fica mais fácil a gente entender que o alimento pode ser o nosso próprio remédio! Pelo menos, de forma preventiva.

Na antiguidade, os gregos entendiam o corpo humano como um microcosmo, e o Universo, como um macrocosmo. Para eles, a nossa saúde dependia de um equilíbrio entre os dois cosmos. Mas, com o passar do tempo, esse entendimento e equilíbrio foram esquecidos. Nós fomos nos descolando da natureza, nos distanciando da terra, dos alimentos frescos e de suas capacidades de cura.

Nunca tivemos tanta alimentação fora do lar, tantos cursos superiores de gastronomia e culinária e tantos programas de TV sobre gastronomia. Também nunca se conheceu tanto sobre o alimento como agora. Só que nunca cozinhamos tão pouco! 

Cozinhar desde criança nos torna mais criativos, cooperativos e críticos em relação ao que comemos e consumimos do planeta.

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Para saber mais…

Ariela Doctors é mãe de duas crianças e teve uma infância muito ligada à culinária e aos prazeres da mesa, já que seus avós, franco-marroquinos, sempre trabalharam com comida. Sua casa era repleta de aromas, cores e sabores inesquecíveis! É formada em comunicação na Escola de Comunicação e Arte (ECA – USP) e trabalhou com tele-educação. Formou-se chefe de cozinha na Escola de Culinária Wilma Kowesi. Atualmente trabalha no Projeto que idealizou, “Comida e Cultura”, que integra comunicação, culinária e educação.

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