Volta e meia nos deparamos com situações corriqueiras de “ensino” das cores em creches e escolas de Educação Infantil. Por que essa aprendizagem é considerada fundamental para o desenvolvimento das crianças? O que dizer das atividades coletivas planejadas para explorar apenas uma cor? Hoje é o dia do amarelo! …um sem fim repetitivo de papéis cortados, tintas e material impresso de qualidade duvidosa, para tentar relacionar o conceito abstrato da cor à sua nomeação.
Parece que a creche é a guardiã desse conhecimento! SERÁ?
Observe as cores ao seu redor…
Elas não existem sozinhas! Estão inseridas num contexto, são características das plantas, frutas, animais, de objetos etc.
Assim, é importante trabalhar as cores como qualidades das coisas, e não extraí-las isoladamente do seu contexto. Afinal, crianças aprendem o mundo a partir do contexto em que vivem: reconhecendo as cores que encontra pelo caminho, nos objetos, nas roupas, na natureza… o universo é colorido! E a criança se interessa por conhecê-lo.
Então por que ensinar cores?
Quais conexões as crianças podem fazer com esse conhecimento?
Crianças vão aprender prontamente sobre as cores e outros conceitos se os incluirmos naturalmente na conversação diária.
Por exemplo, no lugar de perguntar “qual maçã você quer, essa ou aquela? Podemos perguntar “você quer a maçã vermelha ou a maçã verde?” Em outro momento podemos solicitar: “Você pode buscar aquela bola azul?” E assim por diante…
Você é capaz de identificar outras situações em que isto pode acontecer?
Que tal falar sobre as cores das roupas durante a higiene, as trocas e na arrumação para a saída? E as cores dos alimentos na hora do lanche e do almoço?
Na hora da história, comentar a ilustração do livro que está mostrando…
Cores reais…
Outro aspecto do trabalho com conceitos como a cor é a tendência de simplificar e padronizar a realidade que apresentamos para os pequenos na escola.
Pense bem: olhe para a janela da sua sala. Quantos tons de verde você enxerga nas plantas? Quantos tons de preto existem no asfalto da rua? Quantos cinzas tem no concreto? O que dizer dos azuis do céu?
Um interessante projeto de cores com uma turma da Escola Primeira, SP, começou porque uma menina pediu para a professora passar para ela o giz da cor da pele. Aproveitando o gancho (e sem saber onde a provocação iria chegar) a professora respondeu: você quer o giz da cor de qual pele, da minha, mais escura, da sua mais clarinha, ou a dele, bem branquinha?
Ao longo de um semestre a turma de 4 anos pesquisou os tons de pele, a diversidade dos povos e até criou um laboratório para criar cores e dar nomes a elas: azul pasta de dente, roxo vida, cinza praia.
Isso tudo só foi possível porque a professora não limitou a “cor de pele” a um tom padronizado e selecionado a partir de um estojo de giz de cera com 6 ou 12 cores.
Inspirando-se em Reggio Emilia, pode não ser simples conseguir um estojo com 48 tons de lápis de cor para as crianças pesquisarem esse universo. Mas é possível colecionar folhas de diferentes vegetais e, com a ajuda dos pequenos, classificar os verdes, por exemplo. Ou explorar a diversidade das cores das flores e frutas. Quantas maçãs vermelhas tem o mesmo vermelho?
Outra dica é preparar tintas a partir de misturas para ampliar a paleta* das crianças:
- Vermelho com uma pitadinha de azul para obter um vermelho puxando para o vinho
- Vermelho com uma pitada de amarelo para obter um vermelho mais tomate.
- Laranja com uma pitada de marrom para ficar mais tijolo
- Azul com uma pitada de verde para ficar mais “água”.
- Etc…
Para você saber mais sobre cores e se inspirar, pesquise o círculo de cores, com as primarias, secundárias, terciárias, complementares, frias, quentes e neutras. Experimente usá-las. Perceba as suas sensações. Brinque com elas.
Para provocar as crianças…
Faça perguntas sobre as preferências, sobre as sensações que as cores causam, onde são encontradas no dia a dia. Desafie a criatividade e proponha invenção de tons e nomes.
Ofereça brinquedos e materiais que possibilitem às crianças oportunidades para a organização, experimentação e classificação das cores como:
materiais de faz de conta e casinha – bonecas e roupas de boneca, conjuntos de “cozinha”, potes, carrinhos etc.
- comidinhas, sucos, legumes e frutas
- tecidos e retalhos
- materiais como tintas, massinhas e lápis
- papeis e revistas
- diferentes tipos de solos e areias
- grãos como arroz, feijões de várias qualidades, milho, sagu, ervilha etc.
Experimentando e pesquisando em brincadeiras livremente escolhidas… a organização do espaço, dos materiais e as suas perguntas é que vão despertar a curiosidade e a pesquisa!
Descubra com os pequenos que o mundo tem infinitos tons…
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PARA SABER MAIS…
*paleta de cores: gama de cores, conjunto de cores de tons variados.
→ O projeto Cores e Tons foi realizado na Escola Primeira, SP:
Faixa etária: 4 a 5 anos
Professora responsável: Ana Cristina Vampré di Monte
Auxiliar: Fernanda Nogueira e Souza
Atelierista: Bia Nogueira
→ Quer sugestões de livros que falam sobre as cores?
Bom dia, todas as cores – Ruth Rocha
→ Leia mais sobre propostas para trabalhar as cores nas postagens:
Que ideia maravilhosa para trabalhar cores com os pequenos, Praabens!!1
eu venho aqui sempre que preciso me realimentar com boas ideias para o fazer pedagogico…
Olá, Marilucia. Obrigada pelo retorno. Compartilhe com os leitores o que tem feito!