Quando o silêncio ensina: infância, experiência e reflexão na ação

Quando o silêncio ensina: infância, experiência e reflexão na ação

O que acontece quando o adulto não interrompe, não explica, não acelera?

Num dia frio de primavera, crianças de 3 a 4 anos brincavam no parque, sob os olhares atentos e caçadores de oportunidades de duas professoras. A professora Luciana e Michele, sua auxiliar, acompanhavam os grupos e as brincadeiras de faz conta que surgiam e se aprofundavam.

De um momento para o outro, tudo mudou. Perto da professora Michele, um passarinho morto cai de uma árvore. As crianças, atentas e curiosas, correram para observar o animalzinho que não se movia. 

Num impulso quase automático, Michele se apressou para recolher o passarinho. Mas, numa troca de olhares sintonizados com a professora Luciana, decidiram permitir. Uma frase não pronunciada foi trocada entre as docentes: vamos acompanhar e ver no que dá?

A história que se desenrolou entre essas professoras – que acompanho há anos – vai emocionar e provocar muitas reflexões: será que, ao agirmos por impulso, não atravessamos oportunidades de experiências valiosas das crianças? Será que a tal da “reflexão na ação”, proposta por Donald Schön, não está sempre dando lugar ao óbvio e automático?

Silêncio para o passarinho

Por: Luciana Oliveira Abdo

Um momento no parque que virou eternidade, e ficará eternizado  nas memórias dos pequenos.

Quando o silencio ensina 1No parque cheio de risos e desenhos feitos com riscadores da natureza, Theo desenhou Melvy em forma de coração. Era mais que um desenho, era afeto riscado no chão. Reina, com sua voz suave e o sotaque doce da Nigéria, falava de sua família. Sempre dizia “beibe”, com um brilho no olhar ao lembrar da irmã caçula.

Tudo parecia comum, até que um filhote de passarinho caiu no chão, frágil e perdido do céu.

As crianças se aproximaram com olhos grandes de curiosidade.

Quando o silencio ensina 2

Quando o silencio ensina 5Manuela, sem saber o peso do gesto, tocou de leve na asinha do filhote. E então Reina, com a calma de quem entende o silêncio, sussurrou “shuuu, shuuu”, e todos silenciaram.

Com delicadeza, ela pegou o pequeno corpo. Encostou-o ao peito como quem embala uma esperança. Fez carinho, não apenas com as mãos, mas com a alma.

 

Sem palavras longas, com a ajuda dos amigos, cavou um pequeno buraco na terra. Ali, deitou o passarinho como se o colocasse num ninho. Cobriu-o com folhas, que naquele instante viraram flores.

 

Quando o silencio ensina 3E mais uma vez pediu silêncio. Não com imposição, mas com respeito. Um gesto que dizia: aqui há vida que se despede, e isso merece cuidado.

Naquele instante, ninguém mais precisou falar. Todos entenderam. Reina, pequena gigante de sensibilidade, ensinou com o corpo o que o idioma ainda não alcança: que há amor no gesto, há cultura no cuidado, e há infância que, às vezes, nos ensina a ser mais humano.

 

 

Quando o silencio ensina 4

 

O momento poético que professoras e crianças vivenciaram só foi possível porque Luciana e Michele mobilizaram seus saberes e refletiram antes de agir…

… Ah! Mas nunca dá tempo de parar para pensar!
Tudo acontece muito rápido e demanda ação imediata!

Será? Será que não nos acostumamos a agir impulsivamente? Será que o “piloto automático” não se apodera da nossa cabeça e faz com que as ações aconteçam tão imediatamente que pareça não haver tempo para refletir? 

Se as professoras tivessem corrido para tirar o passarinho das mãos das crianças, essa valiosa oportunidade de viver o ciclo da vida, mobilizar os conhecimentos culturais trazidos de casa, exercitar o respeito e o pesar pela vida que se foi, compreender a natureza… nada disso teria acontecido! Essas lições da vida não são “teóricas”, não podem ser transmitidas por meio de explicações. A intensidade da experiência garante uma aprendizagem profundamente repleta de significados.

As crianças mostraram que sabiam lidar com situações que nem podíamos imaginar. E só descobrimos isso porque permitimos e acompanhamos. Porque acreditamos nelas!

Donald Schön (1930 – 1997) foi filósofo, pedagogo e pesquisador americano, que se dedicou ao estudo da reflexão na Educação. Ele entendia o processo pedagógico reflexivo dividido em três etapas: 

1- “conhecer-na-ação” – é a primeira forma de pensamento-atitude do educador. O educador age espontaneamente, com os saberes que já possui, a partir daquilo que entende como ser o seu próprio “eu”, sua maneira de agir. É pensar rapidamente sobre o que fazer e agir imediatamente.

2- “reflexão-na-ação”-  é se deparar com o “elemento de supresa“, aquele acontecimento que desafia o saber-agir imediato, e que acontece naquele breve momento que podemos “dar uma pensadinha” antes de agir. Essa foi a reflexão realizada pelas professoras Luciana e Michele. Elas romperam com o imediatismo e abraçaram o desafio de pensar um pouquinho mais sobre a situação surpresa. Como afirma Schön, “A reflexão-na-ação” tem uma função crítica, questionando a estrutura de pressupostos do ato de conhecer-na-ação. Pensamos criticamente […] sobre essa oportunidade e podemos reestruturar as estratégias de ação”. (p. 33)

3- reflexão sobre a reflexão-na-ação – é a reflexão tradicional, que acontece no “calor da ação” (Madalena Freire), porque apesar do distanciamento do que aconteceu, a experiência ainda está viva e “quente” no educador. Para Schön, além de re-olhar os acontecimentos, o educador precisa descrever a(s) cena(s) – pode ser para si próprio – e terminar por se perguntar “e se…?” : e se eu fizesse desse outro jeito? E se eu dissesse isso? E se eu colocasse tal objeto? E se eu desse mais tempo para tal coisa acontecer? E se, e se, e se…?

É importante dizer que, além de se preocupar e investigar a reflexão do professor sobre sua própria prática, Schön também defendia um ensino apoiado na reflexão do aluno. Isto é, o professor deve ensinar o aluno a refletir sobre o que faz e aprende.

Você pode ler mais sobre observação, registro e reflexão na perspectiva de Donald Schön nas postagens Observação generosa: a dificuldade de observar e registrar a realidade e Pauta do Olhar: o que o professor precisa olhar para registrar?

 

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PARA SABER MAIS…

Donald A. Schön – Educando o Profissional Reflexivo: um novo design para o ensino e a aprendizagem, Editora Artmed, 2000.

Luciana Oliveira Abdo é pedagoga, psicopedagoga e pós graduada em TEA. Neste ano, trabalhou com uma turminha incrível de crianças de 3 a 4 anos, no Centro de Educação Infantil Santa Marina, pertencente ao Instituto Rogacionista, em São Paulo.

Michele Gracy Caetano é estudante de Pedagogia e ocupa o cargo de auxiliar no CEI Santa Marina.

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