Relatório individual em 2020: marcos históricos da vida escolar

Relatório individual em 2020: marcos históricos da vida escolar

Começa o corre-corre de final de ano. Isolamento social ou não, é chegada a hora de avaliar as aprendizagens das crianças, do professor, da escola e da comunidade educativa como um todo:
Qual foi o histórico desse ano?
Como ele começou?
Como reagimos às tempestades da pandemia?
Como ficaram as crianças e as famílias em relação à suspensão das atividades presenciais?
Como a escola encaminhou as propostas remotas? O que observou? Como avaliou ao longo do processo? Como documentou?
A que conclusões chegou?

Estas e outras perguntas precisam aflorar nos encontros pedagógicos para gerar discussões e avaliação:
Como foi o ano de 2020 para a sua escola?
O que as crianças aprenderam?
O que não se conseguiu atingir?
Quais foram as aprendizagens da prática pedagógica da equipe?
E de cada professor?

Avaliar é isso. É perguntar, juntar informações e pensar em várias respostas. “Várias” respostas? Sim, porque o processo avaliativo não tem que revelar certezas, mas despertar pensamentos e possibilidades! Por isso é importante considerar a processualidade da avaliação e levar em conta diversos momentos e situações.

Os processos vividos neste ano foram tão diversos que fica impossível padronizar e comparar. Vamos ter que narrar! Narrar valorizando tudo o que percebemos e sentimos. Neste ano cada escola escreverá um capítulo sobre como vivenciou o histórico 2020.

Então, como processo, a avaliação não pode ter começado na semana passada! Ela acompanha o percurso da criança e dos grupos na escola. Falamos sobre isso na postagem Um guia para a jornada do Relatório Individual.

Mas como fazer relatório sobre um processo que foi pouco acompanhado? Como escrever sobre a criança através do olhar da família? E como avaliar as crianças que ficaram invisíveis durante a pandemia?

Pensando nestas e em outras situações, organizamos algumas sugestões para inspirar você a encontrar seus próprios caminhos na construção dos relatórios da escola em tempos de afastamento social.

1- Histórico da instituição: o que a escola fez em 2020?

Para começar o relatório é preciso introduzir o contexto do trabalho pedagógico.

O olhar institucional pode partir de um pensamento coletivo, construído com toda a equipe pedagógica, em que se retoma o projeto político e se tece relações com o modo como a escola lidou com a pandemia, como colocou em prática as recomendações dos órgãos governamentais e como a comunidade familiar recebeu e reagiu frente ao contexto transformado.

Alguns questionamentos podem orientar a elaboração de um trecho inicial comum para todos os relatórios da escola:

  • Quando as atividades presenciais foram suspensas?
  • Quanto tempo a equipe levou para organizar as primeiras atividades remotas e como elas foram acontecendo?
  • Quais foram os meios de contato com as famílias?
  • Como a equipe se organizou para atender as famílias?
  • Depois das primeiras experimentações, como se estabeleceu a rotina do trabalho pedagógico?

2- Histórico da turma: como foi o trabalho pedagógico realizado pelos professores da turma?

Em seguida ao histórico da instituição em 2020, é interessante falar sobre o trabalho realizado com a turma/grupo. Neste caso, não é fazer uma lista de todas as propostas enviadas para casa! As famílias já receberam este material, e não é necessário mandar tudo de novo! Mas é importante dar uma dimensão do que foi realizado, o porquê (ou os objetivos) das ações e as conquistas. Por exemplo:

  • Foram feitos X vídeos de atividades de artes, de brincadeiras tradicionais, de literatura, de desafios para o corpo, sugestões de faz de conta, de atividades culinárias, propostas de confecção de brinquedos e jogos, de brincadeiras com sucatas e outros materiais etc, e “verificamos uma participação assim e assado”.
  • Enviamos para a casa X livros de literatura infantil, X jogos/brinquedos e X sacolas com materiais plásticos e de largo alcance, “com o propósito de tal, tal, tal…”.
  • Realizamos X atividades síncronas (online) com as crianças da turma, “com propostas pedagógicas sequenciais e coletivas”.
  • Realizamos X conversas/reuniões pedagógicas remotas com as famílias para “oferecer apoio e compartilhar tais conteúdos”.
  • Fizemos X chamada de vídeo com a criança e a família para “aprofundar a escuta sobre tais questões”.
  • Enviamos X Jornais da Turma Tal com relatos que partiram dos registros enviados pelas famílias “como documentação pedagógica para que as crianças tivessem acesso a uma memória do que viveram, e os familiares acompanhassem o olhar pedagógico do professor para os acontecimentos”.

No final deste trecho, é importante fazer um comentário geral sobre a participação e o retorno das famílias, SEM FAZER JUÍZO DE VALOR. Por exemplo: “recebemos com satisfação muitas fotos, vídeos e comentários sobre a participação das crianças nas propostas, o que permitiu que acompanhássemos parte dos percursos de aprendizagem e desenvolvimento do grupo. Os registros enviados pelas famílias também trouxeram referências para pensarmos em novas propostas e desdobramentos das atividades que mais geraram interesses e desafios”.

Sugestão de relatório individual elaborada na formação com a equipe do Tempo de Creche – CEI Santa Marina, SP.

3- Olhar para o grupo

Apesar de poucas escolas terem podido organizar momentos remotos ao vivo e coletivos, pode-se destacar uma ou duas atividades mais recentes, que provocaram maior engajamento entre as famílias e as crianças e retorno satisfatório de registros.

Construa um trecho sobre a atuação parceira das famílias, comentando sobre o empenho em organizar as atividades, preparar os materiais, acompanhar as crianças, fazer registros e enviá-los para a escola. Se a sua escola realizou atividades síncronas (“ao vivo” por meio de plataformas digitais), é importante falar sobre a disposição para que o momento pudesse acontecer. Outros aspectos podem ser abordados: interesse das famílias, proximidade do universo escolar, organização dos espaços propositores, brincadeiras compartilhadas etc.

No entanto, sabemos que para alguns pais e responsáveis foi impossível colaborar com a escola. A falta de conectividade, de tempo ou até de informação não podem representar fatores discriminatórios no relatório: todo cuidado é pouco para não recriminar ou distinguir os diferentes contextos que compõem a comunidade escolar. Frases como “percebemos que as crianças fizeram…” e “a comunidade familiar pode suprir a escola com algumas informações” são neutras e generalistas.

Neste trecho do relatório, é importante relacionar o que foi observado no início do ano (antes da suspensão das atividades presenciais) com o que se pôde observar nos registros enviados pelas famílias. É re-olhar os dois momentos e perceber, se possível, alguns aspectos do desenvolvimento infantil:

  • Como as crianças usaram o corpo nos dois momentos?
  • Como se expressaram?
  • Como eram as marcas do desenho e o como está o desenho agora?
  • Como as crianças se relacionavam com as histórias e os livros e como o fazem agora?
  • O que é possível perceber sobre o repertório musical e cultural?
  • Como eram as brincadeiras e quais mudanças puderam ser notadas?
  • Como está a autonomia?
  • Como era a interação com as outras pessoas e o que se nota agora?
  • Como os pequenos resolviam problemas e o que se pode perceber agora?

4- Olhar para a criança

Até aqui, o relatório é igual para todas as crianças da turma. Dependendo da política da escola e da recomendação da Secretaria de Educação, o relatório pode parar por aqui e ser igual para todas as crianças da turma. Se a escola optar pelo relatório individual, a partir deste ponto, o texto deve focar a singularidade.

Com a mesma estratégia utilizada para apontar as conquistas do grupo, pense nos registros individuais do início do ano e nos realizados por meio das plataformas digitais. A partir do que foi ofertado para as crianças e dos momentos iniciais, perceba se é possível notar conquistas por meio dos relatos, fotos e vídeos enviados pelas famílias ou nos registros do professor realizados nas atividades síncronas (encontros virtuais, vídeo-chamadas etc.).

Sobre o período presencial (fevereiro/março de 2020):

  • Organize os registros de cada criança, obtidos nos meses de fevereiro e março de 2020 (até a suspensão das atividades escolares);
  • Como a criança estava em relação à:
    • interação com adultos e crianças,
    • autonomia,
    • domínio do corpo e movimentos,
    • participação na rotina e no cuidado de si e do outro,
    • brincadeira (exploração de materiais, faz de conta, construção de cenários e de narrativas, relação com outras crianças, jogos etc.)
    • oralidade,
    • expressão através das linguagens da arte (desenho, pintura, modelagem, colagem, construções etc.),
    • repertório cultural,
    • relações estabelecidas entre a linguagem oral e a escrita (para as crianças maiores)
    • resolução de problemas, reconhecimento e comparação entre quantidades, tamanhos e outras qualidades,
    • percepção dos fenômenos naturais e físicos
    • uso dos numerais em situações cotidianas

Sobre o período em casa:

  • O que foi ofertado à criança? Qual/quais registros podem alimentar o olhar do professor? Qual/quais situações foram mais reveladoras?
  • A partir do(s) registro(s) escolhido(s), quais aprendizagens foram observadas?
  • Como a família participou das propostas da escola? Como foi a comunicação? É importante valorizar o envolvimento da família da criança.

5- Para finalizar…

Cabe pensar nas próprias aprendizagens em relação à prática docente e escrever um pequeno parágrafo sobre isso. Atribuir um tom emocionado e sensível ao depoimento, pode dar sabor poético ao final do relatório.

6- Crianças “invisíveis” para a escola

Se a instituição adotar o relatório individual, é preciso pensar sobre o que fazer a respeito das crianças que não “apareceram” para a escola.

Mas… antes de considerar a criança como “invisível”, não desista, temos uma dica! Nas creches em que fazemos formação, organizamos junto às equipes pedagógicas, atividades de vídeo-chamada individual, realizadas com cada criança e seus familiares.

Foi incrível! Os professores se prepararam e foram criadas inúmeras oportunidades para observar as crianças e fazer perguntas para as famílias. Foi possível escutar algumas das crianças que se mantiveram fora do radar da escola.

Quer dicas?

  • Fazer contato com as famílias para marcar data e horário apropriados para realizar as vídeo-chamadas com a presença da criança.
  • Planejar as perguntas a partir do que já conhece sobre as famílias:
    • Como estão;
    • Com quem fica a criança;
    • Se tem brincado; se encontra outra crianças; se tem tido contato com a natureza e tomado sol;
    • O que puderam notar sobre as conquistas e aprendizagens da criança.
  • Se a criança for maior e já puder participar de um diálogo, planejar as perguntas a partir do que já conhece sobre ela:
    • Brincadeiras e brinquedos preferidos
    • Animais de estimação
    • Com quem costuma brincar
    • Histórias/livros que gosta de ler
    • “Mostra para mim”… como você brinca/corre/pula etc.
  • Falar da escola é um assunto comum aos dois interlocutores. Contudo, é bom estar preparado para momentos emocionados.
  • Aí é deixar a conversa rolar. Para alguns, o vínculo com o professor continua existindo e para outros, infelizmente, não. Por isso, se a criança não lembrar de você, aproveite para se apresentar, falar um pouco de si, mostrar um objeto interessante, uma parte da sua casa, uma imagem curiosa… em geral, as crianças se interessam.
  • É fundamental fazer registros. Assim que desligar, no calor do acontecimento, faça anotações. Procure registrar fielmente as falas das crianças para ter parâmetros para pensar sobre as conquistas da oralidade. Se a família permitir, organize os prints das telas e… reflita sobre o ocorrido. Este contato pode revelar aspectos do desenvolvimento da criança e alimentar a construção do relatório individual.

Se ainda assim não foi possível entrar em contato com algumas famílias, não será possível avaliá-las individualmente. Não é possível avaliar o que não se vê. Nestes casos, sugerimos enviar para as famílias somente a primeira parte do relatório, com o relato da jornada escola na pandemia, o apanhado sobre o grupo e o depoimento do professor.

7- O formato do relatório

O relatório individual tradicional: impresso e na pastinha!

Antes da pandemia, os relatórios costumavam ser quase sempre físicos. Centenas de fotos e páginas de texto eram impressos para entregar o “dossiê” para as famílias. Na verdade, esta é uma lembrança linda e marcante da infância, que compõe a história do início da vida escolar. Meus filhos, já adultos, e eu adoramos rever estes marcos. Porém, sabemos que muita coisa mudou para sempre e os relatórios podem ser digitais, coloridos, repletos de imagens e até de vídeos. Algumas escolas transformaram toda a documentação pedagógica de 2020 em murais virtuais, acessíveis e passíveis de armazenamento. Então, é apropriado enviar um relatório por e-mail ou WhatsApp. Mas… se a escola puder… que tal deixar a velha pastinha disponível para ser guardada junto dos corações das mães, pais e futuros adultos?

2020 não foi um ano óbvio e nem fácil. E os relatórios, registros organizados e interpretados do que se viveu, acompanham a complexidade do momento. Sem dúvida, estes instrumentos preservarão as marcas históricas da vida das crianças, das famílias, das escolas e da nossa sociedade.

 

Formação com a equipe do Tempo de Creche

A equipe do Tempo de Creche faz formações com escolas de educação infantil (creches e pré-escolas) da rede pública e privada. Gostamos de colocar a “mão na massa” e atuar presencialmente, mas a pandemia nos trouxe a possibilidade de também trabalhar remotamente. Neste ano fizemos formações continuadas com creches da rede pública da cidade de São Paulo e ações pontuais com equipes pedagógicas e secretarias de educação de diversos municípios brasileiros. Entre em contato conosco para conversar: [email protected]

 

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre os relatórios individuais e documentação pedagógica nas postagens:

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