Estética, Arte e expressão na Educação Infantil: palavra de JulliPop

Estética, Arte e expressão na Educação Infantil: palavra de JulliPop

Afinal, o que é a “estética” citada nas Diretrizes Curriculares? E a “estética” mencionada no campo de experiências Traços, sons, cores e formas da BNCC? Conversamos com a artista, educadora e atelierista JulliPop sobre estética, arte e busca de repertório artístico na educação infantil. Assista o VÍDEO e leia a postagem!

 

Tempo de Creche – Julli, como entender a estética e a relação da criança com a arte no universo pedagógico da Educação Infantil?

JulliPop – A criança é afetada pelo mundo, entregando-se a ele sem amarras. Assim, ao escutar uma história, apreciar um trabalho de arte contemporânea, assistir um vídeo, ver uma peça de teatro etc., ela entra despida na experiência.

Arte e brincadeira tem uma relação aproximada, e todas as experiências acontecem de forma conjugada, inclusive as experiências dos campos de experiências da BNCC.

Eu entendo que cada linguagem tem especificidades – arte, oralidade, literatura, matemática etc. – contudo, não podem ser separadas em caixinhas. Nesse sentido as experiências com a Arte estão misturadas com as experiências que as crianças vivem nos outros campos. A criança vai acumulando as experiências e formando suas camadinhas internas.

Tempo de Creche – Como o professor se aproxima e dialoga com esse universo de experiências?

JulliPop – Primeiro ele deve pensar: como foi a minha infância?

Depois de acordar as lembranças internas, é preciso lembrar do próprio corpo presente nessa trajetória.

E por que fazer isso? Porque a criança é o corpo. Ela faz tudo com o corpo!

E a gente insiste em separar o corpo da cabeça e do resto das coisas. Tudo está conectado: o coração bate, o sangue circula, tem a água do corpo, o ar… Tudo só funciona porque é uma só máquina e a criança não pensa em nada disso, ela só acontece.

Tempo de Creche – E a relação do professor com a Arte?

JulliPop – Depois de pensar sobre infância e corpo, o professor deve se perguntar: como eu me relaciono com a Arte?

Pode ser que pense: ai! Não gosto de Arte! É muito difícil para mim.

A minha sugestão é não ficar paralisado nesta conclusão! O ideal é se perguntar: então, como posso me relacionar [com a Arte]? Que universos [artísticos] existem?

Ah! Não tenho repertório para responder a isso!

Então, vai buscar esse repertório! Porque estamos no melhor momento para se ter tudo em mãos: internet, Google… no mundo digital existem diversos universos artísticos para explorar.

Tempo de Creche – Como o professor pesquisa a respeito de Arte?

JulliPop – Por exemplo, vamos supor que as minhas crianças estejam interessadas em água. Abro a internet e pesquiso “água na Arte”. Com certeza vai aparecer uma lista imensa de sites e imagens.

Depois, posso pesquisar “água na música”, “água na Arte Contemporânea”, “água na Arte Moderna”, “água na Arte Rupestre”, e assim por diante. Pode-se ir desdobrando a pesquisa em inúmeras possibilidades e ir analisando o que é mais interessante e adequado à pesquisa das crianças, ao contexto das brincadeiras e às investigações.

Tempo de Creche – Essa dica é muito interessante! Porque as pesquisas vão revelar elementos para que as crianças ampliem as possibilidades de se expressar, fruir, pensar em ciências, questões relacionadas à identidade, cultura…

JulliPop – Exatamente! Os temas estão coligados. Ainda que eu escolha trabalhar dentro da Arte – com uma música, um filme, uma animação, uma obra de Arte Contemporânea – tudo vai ser orientado pelo tema de interesse, curiosidade e pesquisa das crianças.

Mas também é possível trilhar o caminho inverso, isto é, posso querer disparar algo, selecionar um conteúdo para propor e ver o que acontece.

Na minha prática pedagógica com as crianças, especialmente no início do ano, tenho utilizado a “mala das artes” , que é uma mala comum, recheada com uma série de objetos que ajudam a contar a minha história, e também objetos do cotidiano que eu vou descobrindo e juntando: um clips, um galho, uma folha, um peão, uma paleta de pintura. Enfim, a mala vai sendo montada com coisas que contam e despertam histórias.

 A “mala das artes”, que pode ter outros nomes (caixa de surpresa, por exemplo), é uma estratégia para ajudar a despertar um tema, um encontro, um vínculo com a criança e o grupo.

Tempo de Creche – Ao contrário de ser algo amarrado dá um ponto de parida!

JulliPop – Exato. Outros recursos que vão nesta direção são os livros de literatura infantil, que também provocam vínculos. Por isso tenho sempre três na mala das artes para mostrar para as crianças. Elas escolhem o que mais interessou e conto a história. Em geral, a partir dessa provocação, surgem temas para pesquisar.

Tempo de Creche – E a estética, como se relaciona com esses conteúdos?

JulliPop – A partir da identificação dos temas, começo a refinar as escolhas para construir um repertório de possibilidades e relacionar as crianças com a Arte especificamente. Que é o que chamamos de “nutrição estética”.

Tempo de Creche – Então, como você vê a estética apontada nas Diretrizes Curriculares e na BNCC?

JulliPop – Alguns professores não têm clareza sobre o significado da ESTÉTICA. Não é algo simples e existem muitos estudos sobre esta questão importante. Fundamentalmente, é na primeira infância que a estética precisa ser construída, com carinho e cuidado, despertando a criança para perceber o mundo e como olhar e falar dele.

Por exemplo, vamos pensar nas obras do Romero Britto, um artista que tem uma história e uma pesquisa que talvez não sejam tão ricas e inéditas no universo artístico. Por que será que suas obras são tão palatáveis (fáceis de serem aceitas) e utilizadas? Porque isso tem a ver com a nossa dimensão estética! A busca de um repertório mais amplo, incomum e original, contribui para o desenvolvimento da sensibilidade e da criatividade.

Desse modo, se quisermos que as crianças tenham escolhas múltiplas, originais e diversificadas, devemos oferecer oportunidades para que elas tenham experiências múltiplas, originais e diversificadas também. É nesse sentido que precisamos pensar na escolha do repertório de todas as linguagens artísticas e até no modo como organizamos os objetos e ambientes da escola no dia a dia. Uma mesa arrumada com estética fica mais convidativa.

Tempo de Creche – Você pode falar um pouco mais sobre essa qualidade do ambiente convidar, que nós chamamos de “espaço propositor”?

JulliPop – É um ambiente que dispensa explicações!

Vamos brincar de imaginar. Imagine três mesas para o café da tarde, montadas em uma sala:

  • Uma com toalha verde lisa, xícaras vermelhas, flores cuidadosamente colocadas em cada prato e um prato arrumado de frutas no centro.
  • A outra mesa está sem toalha, com a superfície plástica estampada e, sobre ela, xícaras verde, estampada e preta, um copo de requeijão e um de plástico virado. A aparência é de desorganização.
  • A terceira mesa é toda branca, com todos os utensílios também brancos e as comidas bem organizadas.

Quando as pessoas entrarem na sala, vão naturalmente escolher uma mesa. Mesmo sem entender, é provável que escolham a mesa verde e vermelha ou a toda branca, e deixem de lado a mesa bagunçada. Isso tem a ver com aconchego e harmonia, que nascem com a gente.

Vamos pensar também na natureza. As borboletas impressionam pela simetria das asas e as cores fantásticas. Nada disso “foi mandado fazer”! Nasceu assim.

A mesma sensação acontece quando observamos as frutas. É muito lindo e naturalmente perfeito. Esse universo com o qual nos relacionamos, nos fala sobre estética, desde que nascemos.

E por isso, sem ser exclusiva dela, a estética se aproxima tanto das artes visuais.

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PARA SABER MAIS…

JulliPop, ou Juliana Carnasciali, é mãe de três filhas, professora de Artes Visuais e pós graduada em Caminhada como método para arte educação. Foi premiada duas vezes pelo Instituto Arte na Escola, é atelierista e faz assessoria em escolas e instituições de educação. @malatelie @casa.baguncada www.malatelie.com.br

Leia mais sobre Arte na Educação Infantil nas postagens:

 

 

2 comments

A Estética é o bonito, simples e o organizado, por isso que nos encanta, cada um com o seu significado.
Apreciamos a Arte como uma descoberta de cores, de lugares e pessoas. As crianças entende Arte como uma descoberta e imaginação das coisas. Sem a perspectivas de demonstrar algo por obrigação ou por nota. A Arte permite lhes descobrir, desvendar e desenhar o mundo a sua volta.

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